Entre Delírios e Conflitos: O Desafio da Saúde Mental na Atividade Policial

Nem toda ocorrência policial envolve um crime ou um conflito convencional. Em muitos casos, os agentes de segurança se deparam com pessoas que sofrem de transtornos mentais e que interpretam a realidade de forma distorcida. Quando delírios e alucinações levam alguém a acreditar que está sendo perseguido, ameaçado ou prejudicado por determinada pessoa, existe o risco de uma escalada do conflito, podendo resultar em comportamentos agressivos motivados por uma ameaça que, para o indivíduo, parece absolutamente real. Essa realidade exige preparo técnico, sensibilidade e atenção dos profissionais de segurança pública. Ao mesmo tempo, reforça a importância de ampliar o debate sobre saúde mental, tanto para a população em geral quanto para os próprios policiais, que também estão expostos a fatores de risco para o adoecimento psicológico e merecem acompanhamento e cuidado adequados...

SEGURANÇA PÚBLICAPOLÍCIA CIVILSAÚDE

Alex Galvão

6/1/20263 min read

Saúde Mental e Segurança Pública: Um Tema que Não Pode Mais Ser Ignorado

A atividade policial coloca seus profissionais em contato diário com os mais diversos conflitos humanos. Entre crimes, acidentes, desentendimentos familiares e ocorrências de toda natureza, um fenômeno tem chamado cada vez mais a atenção dos operadores da segurança pública: o crescimento dos casos relacionados a transtornos mentais.

Não é raro que, durante um atendimento policial, uma pessoa procure a delegacia ou acione uma equipe para relatar fatos que, à primeira vista, parecem graves e urgentes. Entretanto, quando a narrativa é analisada com mais profundidade, surgem inconsistências, contradições e elementos que se desconectam da realidade objetiva.

Em muitos casos, essas situações não decorrem de má-fé ou tentativa de enganar as autoridades. Elas podem ser reflexo de transtornos mentais que alteram a percepção da realidade, como ocorre em alguns quadros de esquizofrenia e outros transtornos psicóticos.

Quando a Realidade é Percebida de Forma Diferente

A esquizofrenia é um transtorno mental grave que pode afetar pensamentos, emoções e comportamentos. Entre seus sintomas mais conhecidos estão os delírios e as alucinações.

Os delírios são crenças firmemente sustentadas, mesmo quando não existem evidências que as comprovem. Já as alucinações podem fazer com que a pessoa ouça vozes, veja imagens ou perceba situações que não estão ocorrendo de fato.

Nessas circunstâncias, o indivíduo pode acreditar sinceramente que está sendo perseguido, vigiado, ameaçado ou prejudicado por determinada pessoa, grupo ou instituição. Para ele, essa experiência é real, ainda que não corresponda aos fatos.

O Risco da Escalada do Conflito

Em situações mais graves, quando o transtorno não está sendo tratado adequadamente, a pessoa pode desenvolver forte convicção de que alguém é responsável pelos seus sofrimentos, perseguições ou ameaças imaginárias.

Nesses casos, o indivíduo pode agir de forma defensiva ou até agressiva contra aquele que considera ser a origem de seus problemas. É importante destacar que tais comportamentos não decorrem necessariamente de maldade ou de um transtorno de personalidade antissocial (psicopatia), mas sim de uma percepção distorcida da realidade causada pela doença.

Isso exige dos profissionais de segurança pública preparo técnico, treinamento e sensibilidade para identificar sinais de sofrimento psíquico e adotar protocolos adequados de abordagem.

Principais Sintomas da Esquizofrenia

Entre os sinais mais comuns estão:

  • Ouvir vozes ou sons inexistentes;

  • Crenças de perseguição ou conspiração sem fundamento;

  • Pensamentos desorganizados;

  • Dificuldade de concentração;

  • Isolamento social;

  • Alterações emocionais;

  • Desconfiança excessiva;

  • Mudanças bruscas de comportamento;

  • Falta de motivação para atividades cotidianas.

Nem toda pessoa com esquizofrenia apresenta todos esses sintomas, e o diagnóstico deve sempre ser realizado por profissionais especializados.

Os Policiais Também São Vulneráveis

Quando falamos em saúde mental, é comum que o foco esteja apenas na população atendida pelas forças de segurança. Porém, existe uma realidade que muitas vezes permanece silenciosa: os próprios policiais também estão sujeitos ao adoecimento mental.

A exposição constante à violência, ao sofrimento humano, às jornadas desgastantes, à pressão por resultados e ao estresse operacional pode provocar impactos significativos na saúde psicológica dos profissionais.

Ansiedade, depressão, síndrome de burnout, transtorno de estresse pós-traumático e outros transtornos mentais já fazem parte da realidade de muitos servidores da segurança pública.

Embora a esquizofrenia possua forte componente biológico e genético, os policiais, como qualquer cidadão, não estão imunes ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos e necessitam de acompanhamento preventivo e acesso facilitado a serviços de saúde mental.

Um Desafio que Exige Atenção

A saúde mental deixou de ser um tema secundário para a segurança pública. Cada vez mais, policiais se deparam com ocorrências envolvendo pessoas em sofrimento psíquico, ao mesmo tempo em que convivem com fatores de risco que podem afetar sua própria saúde emocional.

Investir em capacitação, atendimento psicológico, acompanhamento psiquiátrico, programas de prevenção e políticas institucionais de acolhimento não é apenas uma medida de cuidado com os profissionais. É uma estratégia fundamental para melhorar a qualidade do serviço prestado à população e reduzir situações de crise.

Cuidar da saúde mental da sociedade e daqueles que a protegem é um dos grandes desafios da segurança pública moderna. Ignorar essa realidade significa fechar os olhos para um problema que cresce silenciosamente e que exige cada vez mais atenção, conhecimento e humanidade.

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