STF quer vigiar o termômetro da crise enquanto o país cobra confiança

STF abre licitação para monitorar redes em meio à crise e expõe um traço do poder: medir a reação pública antes de reconstruir confiança. Saiba mais...

POLÍTICAJURÍDICOCOTIDIANO

Alex Galvão

4/28/20264 min read

Quando uma instituição decide observar cada palavra dita sobre si, alguma coisa já saiu do lugar.

O STF abriu uma licitação para contratar uma empresa especializada em monitoramento digital. O serviço prevê acompanhamento ininterrupto das redes sociais, alertas em tempo real, relatórios analíticos, classificação de sentimento, mapeamento de tendências e identificação de influenciadores. Tudo isso com capacidade para lidar com até 500 mil menções por dia.

No papel, é comunicação institucional. Na prática, o gesto tem um peso maior.

O problema não está apenas na contratação. Instituições públicas, especialmente as que vivem sob intensa exposição, precisam entender o ambiente em que atuam. Isso faz parte da gestão. Isso faz parte da realidade. O ponto central é outro. Quando essa decisão surge em meio a uma crise de credibilidade, ela deixa de ser apenas técnica. Ela passa a ser simbólica.

E símbolo, em política e em poder, importa muito.

O edital aparece justamente quando o tribunal enfrenta desgaste público, questionamentos sobre sua imagem e discussões sobre a conduta de seus integrantes. Nesse contexto, o monitoramento não soa apenas como ferramenta de leitura de cenário. Soa como resposta defensiva de uma instituição que percebe o tamanho da erosão ao seu redor.

É aqui que a reflexão precisa começar.

Toda estrutura de poder tende a desenvolver mecanismos de autoproteção. Isso não é novidade. O que muda é a forma. Antes, o poder media sua temperatura pelos jornais, pela fala dos bastidores, pelo humor das elites políticas. Hoje, mede pela velocidade da indignação, pelo volume das menções, pelo alcance dos vídeos, pela curva do sentimento negativo. O poder aprendeu a olhar a si mesmo pela lente do algoritmo.

Isso diz muito sobre o nosso tempo.

As redes sociais transformaram a percepção pública em pressão permanente. Não existe mais intervalo. Não existe mais respiro. A crise deixou de ser um evento pontual. Ela se tornou um ambiente contínuo. Nesse cenário, o Estado não observa apenas fatos. Ele observa humor, impulso, reação, medo, ironia, hostilidade, engajamento. Observa o comportamento humano em escala industrial.

E esse é o ponto mais sensível de toda essa história.

Porque monitorar a opinião pública pode servir à transparência. Mas também pode servir à blindagem reputacional. A mesma ferramenta que ajuda uma instituição a entender a sociedade pode ser usada para calibrar narrativas, mapear focos de desgaste e reagir com mais eficiência à perda de apoio. A linha que separa comunicação de controle é mais fina do que muita gente imagina.

Ainda mais quando se fala de um tribunal.

O Judiciário não foi criado para ser popular. Foi criado para ser respeitado. E respeito não se constrói com painel de monitoramento. Não se sustenta com alerta em aplicativo de mensagem. Não se recupera com classificação automática de menções positivas, negativas ou neutras. Respeito institucional nasce de coerência, sobriedade, autocontenção e responsabilidade.

Sem isso, toda tecnologia vira maquiagem.

A crise recente envolvendo falas públicas de ministros só amplia essa percepção. Quando membros de uma Corte produzem ruído, agravam tensões e depois precisam se retratar, o desgaste não nasce da internet. A internet apenas amplifica. Esse é um erro recorrente do poder brasileiro. Confundir repercussão com causa. Tratar o termômetro como se fosse a febre.

Esse padrão se repete.

Primeiro, uma autoridade fala ou age de maneira imprudente. Depois, a sociedade reage. Em seguida, a instituição se mobiliza para conter danos. Quase sempre a energia é maior na gestão da repercussão do que no enfrentamento da origem do problema. É um comportamento defensivo. E comportamentos defensivos, quando viram rotina, revelam medo de encarar a própria responsabilidade.

Silêncio institucional, às vezes, comunica mais do que nota oficial.

A decisão de monitorar redes 24 horas por dia mostra que o STF entende a força do ambiente digital. E entende corretamente. Hoje, reputações são corroídas em tempo real. Narrativas se consolidam em minutos. Desinformação circula com rapidez. Ataques coordenados existem. Crises reais também. Ignorar isso seria ingenuidade.

Mas reconhecer esse cenário não dispensa a pergunta principal.

O tribunal quer apenas compreender melhor o que acontece ao seu redor ou está tentando administrar com mais precisão a rejeição que o cerca?

A resposta importa porque o Estado, quando entra em modo permanente de observação, revela muito sobre seu próprio estado de espírito. Instituições seguras de sua legitimidade monitoram para informar decisões. Instituições acuadas podem monitorar para se antecipar ao desgaste. A ferramenta é a mesma. A intenção muda tudo.

E a sociedade precisa prestar atenção nisso sem histeria, mas sem ingenuidade.

Não há nada de banal quando uma Corte constitucional, em meio a uma crise, estrutura um sistema para acompanhar em tempo real tudo o que se fala sobre ela e sobre seus integrantes. Isso não é apenas gestão. Isso é um retrato do momento. Um retrato de um país em que as instituições já não lidam apenas com fatos, mas com a combustão permanente da opinião pública.

No fundo, a licitação revela menos sobre tecnologia e mais sobre confiança.

Quando a confiança enfraquece, cresce a necessidade de vigiar o ambiente. Cresce a preocupação com o ruído. Cresce a obsessão com a reação. O problema é que nenhuma instituição se salva apenas lendo o que dizem sobre ela. Em algum momento, precisa enfrentar o motivo pelo qual dizem.

E esse é o ponto que não pode ser terceirizado.

Pode haver dashboard. Pode haver alerta. Pode haver relatório diário. Pode haver análise de sentimento. Nada disso substitui a obrigação mais básica de qualquer poder da República. Agir com equilíbrio. Falar com responsabilidade. Respeitar os limites do cargo. Preservar a autoridade sem confundi-la com vaidade institucional.

No fim, a pergunta não é se o STF deve monitorar as redes.

A pergunta é mais dura.

Quem está em crise quer entender o país ou apenas medir o tamanho da própria perda de autoridade?